
Um fenômeno recente na Internet é o número de transferências via Internet que tem sido feitas do programa
MegaCubo, desenvolvido por um grupo de brasileiros. A grande atração do
software, compatível com os sistemas
Windows XP e
Windows Vista é permitir assistir no computador a diversos canais de TV de várias partes do mundo, inclusive alguns canais disponíveis no Brasil até agora somente através de pacotes de TV por assinatura (NET, TVA e SKY, entre outras).
O programa está disponível gratuitamente em diversos sites. No nosso caso, baixamos e testamos
a versão 4.0.8 disponível no site Hot Share. O programa também estava disponível até há alguns dias no site
Superdownloads, líder no segmento de
downloads de
softwares no Brasil, mas quando o procuramos novamente para escrever este
post o programa não estava mais lá. Segundo a página do
Superdownloads, o programa MegaCubo tinha sido baixado
640 mil vezes, o que talvez tenha levado o
site a excluí-lo por problemas de sobrecarga na sua rede.
O arquivo de instalação da
versão 4.0.8 do MegaCubo tem aproximadamente 9 MB e foi instalado sem problemas tanto num computador com
Windows XP como em um notebook com
Windows Vista. Após instalá-lo, o usuário simplesmente seleciona o canal de TV que deseja assistir, dentre os disponíveis em uma lista, e a transmissão começa em alguns segundos. É necessário ter-se uma conexão à Internet em banda larga e, como seria de se imaginar, quanto maior a velocidade desta conexão menos problemas se terá na recepção dos canais. No momento dos testes a maioria dos canais estrangeiros listados estava funcionanado, mas alguns canais brasileiros estavam fora-do-ar, o que pode vir a frustar ao que acham que vão conseguir assistir "de graça" com o MegaCubo todos os canais disponíveis nas TVs por assinatura.
O programa MegaCubo no seu fundamento nada tem de extraordinário. Ele simplesmente captura fluxos de transmissão com a tecnologia
streaming (transmissão contínua de conteúdo) disponíveis em diversos
sites na Internet, reunindo-os em uma interface única e amigável. Por exemplo, ao selecionar o canal de TV britânico de
dance music Ministry of Sound, as imagens são exatamente as mesmas que se obtém ao
acessar o site do Ministry of Sound com qualquer navegador da Internet. O mesmo acontece com outros canais internacionais e brasileiros. Ou seja, os desenvolvedores do programa não devem enfrentar problemas legais pelo fato de estarem transmitindo canais pagos de forma gratuíta, pois o programa MegaCubo nada mais é do que um
browser especializado em cadastrar e receber fluxos de
streaming que são disponibilizados por outras pessoas ou empresas, em diversos sites na Internet.Sem dúvida o programa MegaCubo deve estar já chamando a atenção dos administradores das empresas que dominam o mercado de TV por assinatura. Segundo dados da Associação Brasileira de TV por Assinatura (ABTA), este setor movimentou em 2007 um total de R$ 6,7 bilhões, reunindo 5,3 milhões de usuários no Brasil. O programa MegaCubo faz parte de uma nova geração de serviços que estão trazendo a programação das emissoras de TV para a Internet, coisa que tem sido chamada de
IPTV (TV sobre o protocolo-Internet - IP), que terá muita repercursão no futuro da própria existência da TV como é até agora.
Provavelmente as emissoras que operam no mercado de TV por Assinatura irão pressionar juridicamente no sentido que sejam proibidos programas como o MegaCubo. Mas sem dúvida já assistimos esta "novela" há alguns anos com a proibição do
Napster e a tentativa (obviamente sem nenhum resultado prático...) das gravadoras de música proibirem a transmissão de arquivos
MP3 pela Internet.
Em diversos sites existem análises que mostram que há sempre três passos a serem seguidos quando uma nova tecnologia se torna acessível pela Internet e que vai mudar radicalmente a maneira tradicional como se fazem negócios:
Primeira Etapa: Usar a técnica do avestruz.
Por mais incrível que possa parecer, num primeiro instante os dirigentes do "negócio tradicional" agem como o avestruz que enterra a cabeça na areia para não ver o perigo... Eles simplesmente ignoram (na verdade
fingem ignorar) o advento de uma nova tecnologia na Internet que irá mudar de forma radical o mercado. Foi exatamente o que aconteceu quando o até então obscuro instituto alemão
Fraunhofer Institut Integrierte Schaltungen inventou um algorítmo para a compressão de arquivos de áudio que ficou conhecido como
MP3. No primeiro instante as gravadoras e produtoras de discos simplesmente fingiram ignorar que o padrão MP3 existia e funcionava, possibilitando comprimir -- em arquivos relativamente pequenos e sem muita perda de qualidade -- os arquivos de música digitais. De fato, o nascimento do MP3 deu-se numa época em que as conexões da Internet eram mais lentas que as atuais e a maioria dos usuários gastava algumas horas conectado para fazer o
download de uma única música em MP3. Os diretores das empresas do mercado fonográfico acharam então que as pessoas não teriam paciência para fazer o
download de um disco inteiro e, mesmo que o fizessem, naquela época só podiam ouvir os arquivos MP3 em um computador. Mas logo em seguida começaram a se tornar disponíveis conexões à Internet com banda maior, ao mesmo tempo que surgiram aparelhos portáteis e relativamente baratos nos quais se podia gravar e escutar os arquivos MP3. Também nesta época os gravadores de CD se tornaram mais baratos e o resultado foi uma explosão do tráfego de arquivos MP3 pela Internet.
Segunda Etapa: Chamem os advogados!Ao se darem conta que estavam começando a perder dinheiro com a troca de arquivos de música em MP3 pela Internet, as empresas fonográficas tiveram uma idéia genial, que foi declarar que "este tal de MP3 é coisa de criminosos". Ou seja, os advogados foram mobilizados para estudar o assunto e (obviamente) chegaram à conclusão que a prática de envio de arquivos de música pela Internet violava as leis internacionais de direitos autorais. O site
Napster, que distribuia músicas em formato MP3 gratuitamente, se tornou célebre pela luta jurídica que enfrentou contra os advogados das empresas detentoras dos direitos autorais das músicas. O poder de fogo do batalhão jurídico das empresas fonográficas acabou vencendo e o Napster foi fechado, para depois ser re-aberto como um serviço legalizado de venda de músicas. (Parece que também uma senhora norte-americana de 80 anos foi presa, porquê encontaram no seu computador diversos arquivos MP3 "ilegais" que tinham sido baixados da Internet pelos seus netos...) Mas o fato concreto é que o intercâmbio de arquivos de músicas em MP3 se popularizou, principalmente entre os adolecentes. Hoje em dia em qualquer computador pode-se encontrar de dezenas a milhares de arquivos MP3, nenhum dos quais foi obtido de forma "legal", segundo as gravadoras.
Terceira Etapa: Mude ou morra!Tomando novamente o exemplo do MP3, hoje em dia praticamente ninguém mais compra CDs de música, as lojas que vendiam exclusivamente discos fecharam e as antigas empresas fonográficas estão falindo. Mas alguns visionários (leia-se aqui
Steve Jobs e sua empresa
Apple) perceberam o potencial que se abria com a comercialização de arquivos MP3 pela Internet e lançaram lojas
on line para venda de músicas. As gravadoras que puderam ver o potencial do novo negócio (exemplo:
Sony Music) se deram bem também e conseguiram sobreviver à mudança tecnológica. Na verdade estas empresas perceberam as vantagens de transferir o seu foco de negócio, que havia se transformado em "vender pedaços de plástico com músicas gravadas", novamente no seu objetivo original, que é "vender músicas".
Outras tecnologias da Interet seguiram caminhos semelhantes, mas com final feliz. O
software Skype trouxe a possibilidade de usar o computador como telefone, abrindo para o usuário comum as vantagens do sistema VoIP (voz sobre protocolo da Internet). Hoje em dia as grandes operadoras de telefonia já se renderam ao VoIP de forma irreversível.
O programa MegaCubo parece que até há pouco estava na
Fase do Avestruz e vinha sendo ignorado pelas operadoras de TV por Assinatura. Parece que agora entrou em uma nova etapa. O presidente da
ABTA, Alexandre Annemberg, diz que, por desconhecer o sistema, não pode afirmar se ele é legal ou ilegal. Já o empresário Alexei Martchenko, sócio-proprietário da SD Internetworks Ltda., empresa que administra o
Superdownloads, afirma que o
site analisa tecnicamente o funcionamento dos programas e que todo o conteúdo oferecido respeita as normas e legislações vigentes no país. Ele afirmou porém que
"existem casos em que há um buraco jurídico, que, por alguns momentos, permite a utilização de alguns programas até que surja uma decisão judicial definitiva." Parece então que os advogados já foram chamados e o MegaCubo entrou na
Fase Dois.
Enquanto isso, os usuários continuarão a
baixar o programa MegaCubo e instala-lo nos seus computadores, com o qual vão assistir daqui há pouco a etapa do
Mude ou Morra das TVs por assinatura.
Para quem se interessar em acompanhar a evolução do assunto, há um
fórum de discussão sobre o programa MegaCubo.